VIDA AFETIVA

 
 

A SERPENTE MÁGICA

Mitos, ritos e tabus



Todo dia, Rá caminha, com dificuldade, ao longo da mesma estrada. Escondida atrás de espessos arbustos, Ísis o vigia. De repente, o velho tosse e cospe. Assim que ele se afasta, a maga corre até o local onde caiu a saliva divina e a transforma em pedra, misturando-a com a terra. Daí a pouco, entre seus dedos, essa lama amassada toma a forma de uma serpente, que ganha vida por meio de palavras mágicas pronunciadas por Ísis. Em seguida, ela esconde o réptil na estrada pela qual Rá costuma passar. No dia seguinte, ao fazer seu passeio diário, Rá sente no pé uma dor aguda, que imediatamente se espalha pelo corpo todo, sem que ele tivesse ao menos vislumbrado a serpente que o mordeu. Rá sente o corpo queimar e, ao mesmo tempo, um frio glacial percorre suas veias. Um violento tremor sacode-o e o faz gritar: 

- Que é isso? Que me aconteceu? 

Ao ouvir seus gritos, todos os deuses acorrem. Rá explica que sente uma dor imensa, mas não sabe a origem. O grande deus Sol consegue apenas lamentar sua impotência diante do mal que lhe aflige. É então que, destacando-se do círculo formado em torno de Rá pelas divindades aterrorizadas, Ísis avança:

- Foi uma serpente, divino pai, que com seu poderoso veneno causou o mal que atormenta teu corpo. 

Espera um instante e acrescenta: 

- Revela-me teu verdadeiro nome e, com meus encantamentos, te livrarei da dor. 

O velho deus está a ponto de desmaiar e se retorce no chão. Sofre, mas hesita. Embora não queira revelar o segredo, precisa dar uma resposta a Ísis. Desesperado, limita-se a enumerar os diversos nomes que todos conhecem. 

- Sou Quéfri de manhã, Rá ao meio-dia e Aton ao entardecer. 

Ísis, no entanto, não se deixa enganar e responde: 

- Nenhum desses é teu verdadeiro nome! Dize a verdade, e minha magia pode livrar-te para sempre dessa dor. 

Rá ainda hesita e resiste o quanto pode, mas a dor torna-se insuportável, e ele acaba cedendo. Contrariado, chama Ísis para junto de si: 

- Vem cá! Vou derramar em teu coração o poder que está no meu. 

Ísis aproxima-se de Rá, que a leva para longe dos outros deuses. A contragosto, sussurra em seu ouvido o nome misterioso. Fortalecida pelo segredo, Ísis pronuncia as únicas palavras mágicas capazes de quebrar o encantamento. Imediatamente, Rá recupera a saúde. O grande deus fica muito aborrecido por ter sido obrigado a entregar a essência de seu poder, mas Ísis está feliz: acaba de transformar-se numa das maiores divindades, senão, a mais poderosa de todas. 


O Egito
Mitos e Lendas 


Alain Quesnel - J.M. Ruffieux - J.J. e Y. Chagnaud
Tradução de Ana Maria Machado
Editora Ática, 1993. 

 

ALMA por Kelsen André

Tua alma anda guardada em mim. Parte dela pelo menos que meu ser comporta. Outros guardam outras partes. Era justamente deste pique-esconde que queria dizer e tu leu sem eu ter escrito. Nos escondemos dentro de algumas pessoas. Nos encontramos com elas para que ela nos devolva a nós mesmos. Por ranço, estupidez, mesquinhez e até mesmo esquecimento, mas, sobretudo amor; achamos que esta parte que guardamos para o outro é nossa. Assim posso te dizer que parte da sua alma repousa ainda no meu colo. E pelas manhãs acordo com o sol batendo na face e ela me chamando para ver o dia que nasce, e o mesmo dia que morre para nascer de novo.
Em tudo ela me ensina que a magia é só esta: ficar abraçado vendo o tempo se mover sobre nós e sob nós. Depois quando vamos embora sei que o por do sol é seu cabelo dourado e a terra seus olhos castanhos. Repleto de você, mesmo na sua ausência, viro mago, não por saber feitiço, mas por ter aprendido a brincar de pique-esconde. Ter aprendido a guardar o outro no ser, mesmo quando ele some. Ter aprendido a simplesmente, amar.
Minha sacerdotisa celta parte de tudo isto foi tu que me ensinastes. Um abraço eterno como o mesmo sol que nos acordava.
Kelsen André – 09/03/2007

Atritos (Roberto Crema)

Ninguém muda ninguém;
ninguém muda sozinho;
nós mudamos nos encontros.

Simples, mas profundo, preciso.
É nos relacionamentos que nos transformamos.
Somos transformados a partir dos encontros,
desde que estejamos abertos e livres
para sermos impactados
pela idéia e sentimento do outro.
Você já viu a diferença que há entre as pedras
que estão na nascente de um rio,
e as pedras que estão em sua foz?

As pedras na nascente são toscas,
pontiagudas, cheias de arestas.
À medida que elas vão sendo carregadas
pelo rio sofrendo a ação da água
e se atritando com as outras pedras,
ao longo de muitos anos,
elas vão sendo polidas, desbastadas.
Assim também agem nossos contatos humanos.
Sem eles, a vida seria monótona, árida.
A observação mais importante é constatar
que não existem sentimentos, bons ou ruins,
sem a existência do outro, sem o seu contato.
Passar pela vida sem se permitir
um relacionamento próximo com o outro,
é não crescer, não evoluir, não se transformar.

É começar e terminar a existência
com uma forma tosca, pontiaguda, amorfa.
Quando olho para trás,
vejo que hoje carrego em meu ser
várias marcas de pessoas
extremamente importantes.

Pessoas que, no contato com elas,
me permitiram ir dando forma ao que sou,
eliminando arestas,
transformando-me em alguém melhor,
mais suave, mais harmônico, mais integrado.
Outras, sem dúvidas,
com suas ações e palavras
me criaram novas arestas,
que precisaram ser desbastadas
Faz parte...
Reveses momentâneos
servem para o crescimento.
A isso chamamos experiência.
Penso que existe algo mais profundo,
ainda nessa análise.
Começamos a jornada da vida
como grandes pedras,
cheia de excessos.
Os seres de grande valor,
percebem que ao final da vida,
foram perdendo todos os excessos
que formavam suas arestas,
se aproximando cada vez mais de sua essência,
e ficando cada vez menores, menores, menores...

Quando finalmente aceitamos
que somos pequenos, ínfimos,
dada a compreensão da existência
e importância do outro,
e principalmente da grandeza de Deus,
é que finalmente nos tornamos grandes em valor.

Já viu o tamanho do diamante polido, lapidado?
Sabemos quanto se tira
de excesso para chegar ao seu âmago.

É lá que está o verdadeiro valor...
Pois, Deus fez a cada um de nós
com um âmago bem forte
e muito parecido com o diamante bruto,
constituído de muitos elementos,
mas essencialmente de amor.
Deus deu a cada um de nós essa capacidade,
a de amar...
Mas temos que aprender como.

Para chegarmos a esse âmago,
temos que nos permitir,
através dos relacionamentos,
ir desbastando todos os excessos
que nos impedem de usá-lo,
de fazê-lo brilhar

Por muito tempo em minha vida acreditei
que amar significava evitar sentimentos ruins.
Não entendia que ferir e ser ferido,
ter e provocar raiva,
ignorar e ser ignorado
faz parte da construção do aprendizado do amor.

Não compreendia que se aprende a amar
sentindo todos esses sentimentos contraditórios e...
os superando.
Ora, esse sentimentos simplesmente
não ocorrem se não houver envolvimento...

E envolvimento gera atrito.
Minha palavra final: ATRITE-SE!

Não existe outra forma de descobrir o amor.
E sem ele a vida não tem significado.


Por Kelsen André

 

Na presença dela, ele re-descobre a natureza e ve as chispas de fogo que dispara do coração da amada. Agora nao mais sacerdotisa, nem mesmo devassa, apenas deusa. Uma forma em calice da mulher que ama. é nesta forma que o guerreiro se transforma em espada, excalibur. e adentra o calice, a amada. Se fundem, se unem. se transformam. se entrelaçam em sonhos e visoes, em estados primoridiais e estados de nao tempo. Não sao mais homem nem mulher, sao simbolos. A armadura do guerreiro reluz de prata e interioriza na amada, ela esta protegida ate mesmo de mim. E o vestido da vestal purifica as dores do guerreiro, cura os seus sangramentos da batalha que travou contra a vida e ele mesmo.

Dentro do calice sagrado que ele adentrou, ele se cura de si mesmo. Entende que a vida pulsa nele querendo morte, mas a morte nem sempre é sangue, quase nunca é dor. A morte é renascimento, é uma forma diferente de amor. é um estado outro de amar. Amam agora, porque se amaram ontem. amam ontem, porque amaram o futuro. amam, porque o amor é a energia do sempre e no sempre.

Amam, primordialmente, porque um diante do outro se permitiram ser dominador e dominado, dominada e dominadora. puta e deusa. sadico e mago. entraram em contato com as dores, as sombras e nada assustou o outro e aão tememos a solidão, o caminho incansavel de ter como unica companheira a morte, a loucura e a solidão. Tendo feito as pazes com eles mesmos, ouviram as gargalhadas de Hades e tiraram o elmo da invisibilidade. Lhes dizendo: o elmo era apenas para uns momentos, nao para todos os instantes. Era apenas um recurso, um instrumento e não uma armadura. Persefone tb sauda o casal e lhes traz o elixir da beleza, da eternidade. diz ela: que ser jovem, ser bela é aceitar o tempo. Na verdade aceitar a transformação que os seus filhos promovem no tempo. E todo tempo é ontem. Todo tempo é amanha. Todo tempo é sonho, todo tempo é profecia. Todo tempo é ilusão ate que brota o amor, o senhor do tempo. todo amor é transformação, Plutão no mais profundo.

Temer matar, temer morrer é no fundo e somente; temer amar.

O guerreiro perdido no tempo veria que já nao é mais. já nao é forte, guerreiro, mago, deus, sadico, menino; ele é homem. Agradece encantado ao universo. Agradece encantado à vida. Agradece encantado a amada.

permanecem um dentro do outro nascendo, morrendo, renascendo inumeras vezes e em cada uma delas novas cenas, imagens, lugares; mas sobretudo um: eles mesmos.



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